Turquia anuncia medidas para conter desvalorização da moeda | VEJA.com

Recep Tayyip Erdogan

Erdogan, que atribuiu a um complô a queda vertiginosa da lira turca, acusou nesta segunda-feira os Estados Unidos de quererem esfaquear a Turquia pelas costas (TURKISH PRESIDENT PRESS OFFICE/AFP)

A Turquia anunciou nesta segunda-feira uma série de medidas para conter a forte desvalorização de sua moeda, em um momento de tensão com os Estados Unidos e de desconfiança dos mercados, no que o presidente Recep Tayyip Erdogan denuncia como um “complô”.

O Banco Central da Turquia indicou que proporcionaria toda a liquidez necessária aos bancos e prometeu adotar “todas as medidas necessárias” para assegurar a estabilidade financeira.

O anúncio aconteceu depois que a lira turca, que perdeu mais de 40% de seu valor em 2018 na comparação com o dólar e o euro, desabou na sexta-feira, o que provocou uma onda de pânico nos mercados.

Analistas defendem que o Banco Central aumente as taxas de juros para defender a lira e controlar a inflação (que em julho alcançou a 16% em ritmo anual). Mas no comunicado desta segunda-feira o BC não menciona as taxas de juros – Erdogan é contra o aumento.

Veja também

O presidente considera que o aumento das taxas de juros é “um instrumento de exploração que torna os pobres mais pobres e os ricos mais ricos”. “A recusa de Erdogan de aumentar as taxas sugere que a situação não se calmará a curto prazo”, disse Konstantinos Anthis, analista do grupo ADS Securities.

A Bolsa de Tóquio encerrou a sessão de segunda-feira em forte baixa de 1,98%, afetada pela crise da lira turca, que na sexta-feira perdeu 16% de seu valor.

Nas negociações no mercado asiático, a lira turca registrou um novo mínimo histórico, superando pela primeira vez a barreira de 7 liras por dólar, antes de reduzir as perdas imediatamente depois do anúncio do Banco Central. Às 6h30 (3h30 de Brasília) a cotação era de 6,65 por dólar.

O BC turco revisou os índices de reservas obrigatórias para os bancos, com o objetivo de evitar qualquer problema de liquidez, e informou que proporcionaria ao sistema financeiro quase 10 bilhões de liras, 6 bilhões de dólares e o equivalente a 3 bilhões em ouro de liquidez.

O ministro turco das Finanças, Berat Albayrak, genro de Recep Tayyip Erdogan, tentou acalmar a situação no mercado ao anunciar que o país divulgaria nesta segunda-feira uma bateria de medidas com o o objetivo de estabilizar a lira.

Erdogan, que atribuiu a um complô a queda vertiginosa da lira turca, acusou nesta segunda-feira os Estados Unidos de quererem esfaquear a Turquia pelas costas. “De uma parte, vocês estão conosco na Otan e, de outra parte, tentam esfaquear seu aliado estratégico pelas costas. É aceitável algo assim?”, questionou Erdogan durante um discurso em Ancara.

“Com a ajuda de Deus” 

A tensão entre os dois aliados na Otan aumentou nos últimos dias, com declarações agressivas, sanções e ameaças de represálias. A situação chegou ao ápice com o aumento das tarifas americanas à importação de aço e alumínio turcos, o que arrastou a lira.

No centro da batalha está o pastor americano Andrew Brunson, julgado na Turquia por “terrorismo” e “espionagem”, em prisão domiciliar desde julho, depois de passar um ano e meio em uma penitenciária. “Enfrentamos novamente um complô político dissimulado. Com a ajuda de Deus vamos superar”, afirmou Erdogan no domingo.

Ele não demonstrou muita preocupação no domingo com a decisão do presidente americano, Donald Trump, de dobrar as tarifas sobre o aço e o alumínio turcos. Ele prometeu que Ancara buscará “novos mercados, novas associações e novos aliados”.

O chefe de Estado deu a entender que era o conjunto da aliança entre Turquia – membro da Otan desde 1952 com o apoio de Washington – e Estados Unidos que estava em jogo.

As forças dos Estados Unidos mantêm uma importante base em Incirlik, sul da Turquia, atualmente utilizada como centro de operações contra o grupo extremista Estado Islâmico (EI).

A Turquia critica o apoio do governo dos Estados Unidos na Síria às Unidades de Proteção do Povo Curdo (YOG). Ancara vê esta milícia como uma continuidade do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), considerado “terrorista” pelos governos turco e americano.

Washington pede a libertação imediata do pastor Brunson, que pode ser condenado a 35 anos de prisão, enquanto Ancara solicita a extradição de Fethullah Gülen, pregador turco exilado há 20 anos nos Estados Unidos e a quem o governo turco atribui o golpe de Estado frustrado de julho de 2016.

Facebook Comments